O que pode e o que não pode no namoro

domingo, 2 de novembro de 2008

É claro que apesar de toda a vigilância e conselhos da família uma hora eu ia namorar. E aconteceu. E havia regras e mais regras sobre o namoro naquela época, e uma série de mitos que mais serviam para confundir e para nos despertar sentimento de culpa que para nos afastar das "coisas erradas".

A ignorância era tanta que tive uma amiga que se casou achando que estava grávida aos 16 anos, abandonou a escola e tudo mais. Os meses se passavam e nada de barriga. Foram ao médico e ela e o marido - de 18 anos - descobriram que não só ela não estava grávida como ainda era virgem. Simplesmente não sabiam O QUE OU COMO fazer as coisas.

Havia muitos mitos, do tipo "se deixar o namorado passar a mão nos seios eles vão cair" ou então que se uma menina não fosse virgem todo mundo perceberia porque suas pernas ficariam separadas como de um jogador de futebol de pernas tortas.

Algumas de nós quando perdiam a virgindade ficavam pelos cantos, achando que estava escrito em suas testas e que assim que descobrissem a "grande verdade" seriam banidas do mundo. Hoje ninguém dá tanto valor a essas coisas e a informação está ao alcance de qualquer pessoa. Mas quando eu iniciei minha vida sentimental isso não havia.

Só fui descobrir como se faziam bebês aos 13 anos e foi um choque, o mundo acabou para mim. Fiquei dias deprimida sentindo que tinham traído minha confiança, não entendia como pessoas que eu amava e respeitava podiam dar-se ao desfrute de fazer "aquelas coisas". Decidi não me casar nunca, para não ter que me sujeitar também. Anos mais tarde descobri que "aquelas coisas" não são feias, pelo contrário, são bonitas, boas e fazem um bem danado!

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Mudanças drásticas

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Quando eu tinha 13 anos conheci aquele que seria o primeiro amor de minha vida, aquele amor adolescente que nos desperta para essas coisas do coração. Coincidiu que nessa época minha tia, não sei por que cargas dágua, escolheu uma escola em Diadema para dirigir. Nunca se tinha ouvido falar em Diadema por lá e nem em São Paulo, quando chegamos para conhecer a escola, ninguém sabia que ônibus tomar para chegar lá.

Tomamos um que deu tantas voltas que daria para chegar até em Araçatuba. Menina do interior e nada acostumada a esses meios de transporte de cidade grande, cheguei a Diadema passando mal, o estômago revirado. E mais revirado ainda ficou com o que vi quando desci do ônibus, deu vontade de voltar.

Diadema era só morro, barro e favela e eu bati o pé que em Diadema não morava nem morta. Minha tia, pasmo total, concordou! Então ficou ela morando em Diadema, eu minha vó e meu tio em Araçatuba. Foi um ano ótimo, sem rédeas e sem cobranças. A primeira providência que tomei foi falsificar a assinatura de minha tia - demonstrando uma recém-descoberta inclinação para a vida criminal - numa ficha de transferência, e foi assim que me livrei de uma só vez das freiras, das colegas esnobes, das missas da sexta-feira de manhã.

Estudando em escola pública, logo descobri que não davam a mínima para o que os alunos faziam, e à exemplo de uma cabrita criada presa que de repente se vê solta na pradaria, pastei de tudo quanto era grama. Aula? Pra que, eu ia direto pra escola, na hora do intervalo ia pro clube, lá nadava e passava horas agradáveis ao lado do amor juvenil.

De matança em matança, as aulas foram ficando uma coisa distante em minha vida, até que o ano chegou ao fim... Tomei bomba em química! Aí "a casa caiu". Minha tia veio de Diadema, arrumou minha mala e lá vim eu morar em Diadema. A depressão profunda que me atingiu então demorou anos para se dissipar, é a primeira das que me lembro, eu ficava trancada em casa lembrando as coisas boas de Araçatuba, esquecia as más.

Eu ainda não sabia, mas essa mudança para Diadema foi uma mudança importante, sem a qual eu não seria a pessoa que hoje sou. E - modéstia às favas - gosto de quem sou.

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As matinês do Cine Peduti

terça-feira, 8 de julho de 2008

Era o fino da bossa ir à matinê do Cine Peduti no domingo. Todo mundo que contava estava lá, o pessoal da escola e do clube, as pessoas da "nossa idade". Não importava o filme que estava passando, só tinha reprise de Tarzan. Ninguém se importava com o filme, estávamos lá para nos encontrarmos todos no domingo.

Foi na matinê de domingo no Peduti que eu vi o meu grande amor nos braços de outra. E a outra era minha melhor amiga! Agora durma com um barulho desses! Minha melhor amiga e meu namorado.

Essa minha "melhor amiga" era minha amiga há alguns anos. Era doméstica e tinha o maior complexo, quando saíamos eu tinha que emprestar roupa, sapato, bolsa, dinheiro. E ela se sentia bem à vontade. Quando eu tinha roupas que não usava mais, mesmo novas, ela as herdava todas. Só que eu nunca a tratei de cima para baixo, era minha melhor amiga - e ponto final.

Mas acho que ela não pensava bem assim. Tivemos uma discussão por um motivo besta, no domingo ela foi à matinê com uma amiga dela lá e deu mole para o meu namorado. E ela sabia que eu era louca por ele.

Pior: fez questão que eu soubesse, mandou uma amiga me contar. Juntei os dois (ela e ele) e quis saber tudo, tintim por tintim. Ele me disse que era verdade e eu perguntei a ela porque fizera isso. Ela me disse que estava cansada de sempre receber "esmolas", que queria me provar que era capaz de me "tomar" o namorado. E à medida que falava, caía num choro convulsivo e ia recontando tudo o que eu já sabia: as vezes em que eu a ajudara para que também "fizesse parte".

Fiquei ali, boquiaberta, nunca imaginei que minha vontade de ajudar alguém despertasse nessa pessoa tanta fúria, tanta mágoa. O fato de eu ajudá-la fazia com que se sentisse inferior e isso provocara nela um ressentimento que remoera por anos sem que eu jamais suspeitasse.

Agora ela me cuspia aquilo tudo na cara, eu com 13 anos nem imaginava que alguém pudesse se sentir assim apenas porque quisemos ajudar. Mas com o tempo vi que ela não era a única. Acho que todas as "serial killers", aquelas que vão matando nos filmes todas as pessoas que se interpõem entre elas e o que querem, começam assim.

Não sei o que aconteceu com minha "melhor amiga". Nem com meu namorado. Mas aprendi uma importante lição sobre a natureza humana. Da pior forma e para nunca mais esquecer.

(zailda coirano)

Voltando a Araçatuba

terça-feira, 1 de julho de 2008

Quando saí de Araçatuba para morar em Diadema foi na marra, lá eu tinha minha turminha, saía nos finais de semana, ia aos bailinhos do Corinthians, à matinê do Peduti. Em Diadema minha vida mudou. Eu já não tinha amigos nem para onde ir, e nem me atreveria porque morei a vida toda no interior do estado e não me animava a tomar ônibus na Grande São Paulo.

Eu passava o tempo todo em depressão, e foi quando comecei a escrever cartas para pessoas que publicavam anúncios em revistas procurando amigos. Passava horas escrevendo cartas, lendo livros, vendo TV. Não me enturmava de jeito nenhum. Era da escola pra casa, de casa pra escola.

Foi assim que comecei a tomar conhecimento de coisas que nunca haviam antes me chamado a atenção. Interessei-me por política, feminismo, futebol. Comecei a ler jornais e ficava indignada com as desigualdades sociais, a opressão à mulher, o abuso de patrões para com seus empregados. Aos 18 anos inscrevi-me como plantonista do CVV Samaritanos.

Nessa época eu estava trilhando um caminho sem volta, porque uma vez que comecemos a pensar e questionar, que tomemos consciência do mundo ao nosso redor e de como ele funciona, nunca mais poderemos fechar os olhos ou cruzar os braços. Se o fizermos nos tornaremos eternos frustrados, nos sentiremos um nada porque a consciência permanece alerta e não há nada que a faça adormecer de novo, uma vez desperta.

Aos 18 anos fui pela primeira vez a Araçatuba depois de quase 4 anos, e estava super-ansiosa. À noite nem dormia me imaginando já de papo com minhas amigas, haveria muitas novidades para contar.

Quando cheguei mal joguei a mala em um canto e corri para a casa de uma delas, onde elas estavam reunidas me esperando. Os cumprimentos foram efusivos e emocionados, depois de tanto tempo. Comecei a contar minhas histórias mas logo percebi que elas não faziam idéia do que eu estava falando, se entreolhavam como se estivessem vendo um ET. Tratei de calar a boca e as encorajei a contar o que havia acontecido na vida delas nesses 4 anos.

Em minutos elas tagarelavam mas pela primeira vez notei que só falavam de coisas fúteis, o mundo mudara (ou eu mudara) e agora eu as encontrava exatamente do mesmo jeito que as deixara. As fofocas do final de semana. O bailinho de sábado. As músicas e roupas da moda. E mais nada.

A despedida foi um pouco fria e quando finalmente voltei para Diadema foi com um sentimento de vazio dentro de mim. Eu ainda não me sentia pertencendo ao lugar onde estava no presente mas havia acabado de perder todas as raízes que me ligavam ao passado, que eu ternamente cultivara aquele tempo todo e agora via desfazerem-se como fumaça.

Sabia que jamais nos veríamos novamente. Araçatuba finalmente era um capítulo encerrado em minha história.

(zailda coirano)

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domingo, 25 de maio de 2008

 
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